Entrevista com o Prof. de História Dário
Benedito, por Marcos Lhamas e David
Brito.
Interview
with Professor of History Dário Benedito from the Universidade Federal do Pará
1_ O que você conhece sobre arte em Bragança no
passado?
R: A arte
bragantina tem uma identidade que mostra um pouco da regionalidade, da cultura,
aspectos da paisagem, da natureza e principalmente do não desenvolvimento de
uma técnica de pintura ou escultura. Outra coisa bem interessante é o que tá na
propaganda dos jornais antigos. Pouca coisa restou, mas eu vou destacar uma
senhora que foi aluna de Dom Eliseu Corolli da primeira turma do Santa
Teresinha, chamada Ruth Pereira que vem a ser filha de Argentina Pereira, irmã
do seu Antônio Pereira. Ela produziu quadros de uma beleza plástica muito
interessante, entre os anos 40 e 50, e esses quadros estão sob o poder da
família. quadros que são muito parecidos com as técnicas de Antonio Parreiras.
É tudo em cor, tudo colorido. Ela apresentou os aspectos da orla, o mercado, os
trabalhadores, isso no passado. Eu vi algumas dessas obras por conta dos filhos
e ela não tinham isso como uma devoção, mas como hobbie. Então, pensar na arte
aqui, também no passado, é pensar nas pastorinhas, um espetáculo teatral do mês
de maio, é pensar nos altos do divino espírito santo, na construção de
stand-artes, na festa de São Benedito, isto no século XIX e XX. As pastorinhas
acabaram. Aqui em Bragança tinha o circulo do divino espirito santo que era na
época de Pentecostes, era um negócio fantástico, produção de tapetes grandes
etc. Agora, a produção de arte para o consumo interno, isso não aconteceu. Você
tem um nome na arte de Bragança que foi muito famoso no século XX, talvez um
dos mais importantes exemplos, Valdir Sarubbi, produziu coisas lindíssimas de
arte dessa questão pictórica. Você tem o Miguel Lira que eu gosto muito e que é
autodidata, a produção de arte com o teatro, ai você tem o exemplo do Aviz de
Castro, eu trabalhei com o Aviz, eu já fui até pluft, eu fui pluft da Maria
Clara Machado, você tem a música nos exemplos de seus mestres como o seu José
Brito que fazia rabeca, o Geisel Melo que tem uma produção muito grande, o
Benedito Luz que tá fazendo obras (telas) em preto e branco onde tem muita
coisa ligada a farinha, a identidade da mandioca etc. você tem Cirene Guedes
que produz poemas, você tem os artistas menores que não aparecem um pouco, que
agente vê na noite, vê no barzinho etc. você tem no século XX, falando de arte
no sentido da literatura, Maria Lucia Medeiros, Gerson Guimarães, Rodrigues
Pinagés escrevendo sobre Bragança... então, isso tava muito evidente na questão
da identidade da cidade. Arte também é o patrimônio, onde você tem no século XX
os casarios, a arte arquitetônica, os desenhos neoclássicos, os prédios, a
formação quadrilátera de Bragança, toda em ângulo de noventa graus, se você
olhar de cima. Toda essa arte fazendo sentido pro povo, o passado da arte e o
presente da arte.
1_ What do you know about art from Bragança in the past?
Art in Bragança has an identity that showcases the region, mainly aspects of culture and the natural landscape through a development of painting and sculpture. Another interesting thing are old newspaper advertisements. Few things have survived, but I will highlight one story of a woman who was a student from Dom Eliseu Coroli School from the first ever class of the Santa Terezinha Institute named Ruth Pereira who was Mrs. Angelina Pereira’s daughter and Mr. Antônio Pereira’s sister. She made some interesting paintings with extraordinarily modern beauty. Between the '40's and '50’s the rights of these paintings were held by her family. She painted the Bragança riverfront, the market, workers and canoes. I got to know her through children who told me that it was her hobby. So to think about Bragança's art until now and also in the past is to think in Pastorinhas, a theatrical spectacle in May, it’s to think of the acts of the Divino Espírito Santo [divine spirit], in stand-arts constructions, in the São Benedito festival, this is in XIX XX century. Then the pastorinhas ended. Here in Bragança we had the circle of Divino Espírito Santo which was during Pentecost time, it was a fantastic thing and a large production with big tapestries etc. If you search for examples in the cemetery, funereal art, sculpture, etc., you will find a diversity of examples. Other instances of unknown art from the XIX and XX century were band and euterpes. There were many bands like Cantídio Gouvea and the history of the “Curve of the Forest Seven” which was about the death of seven people from the same band and another called “A Furiosa.” So you can see many examples of interesting art. The Mary’s Daughters Choir from '40's, '50's, '60's and 70’s from XX century. All of them are great examples of art.
2_ Quais resquícios, dessa arte do século XIX e XX, você acha que ainda são evidentes nos dias atuais? Que influencias eles deixaram?
R: Da musica fica a partitura, tem o domínio público das musicas ligada ao circulo do São Benedito etc. Nós temos uma memória muito frágil, as pessoas não guardam essas coisas. É muito fácil destruir o passado, mas eu acho que a arquitetura é um vestígio interessantíssimo do passado. A arte funerária, por exemplo, o cemitério Santa Rosa de Lima que é de 1883. Os azulejos, os casarios, o mercado de carne que é de 1911, o Instituto Santa Teresinha que é de 40, o monsenhor Mâncio Ribeiro que é um palacete de 1931, um prédio neoclássico, a prefeitura é um exemplo disso, de 1902, e a catedral que é do século XIX. Então, isso é arte, você pode perceber a presença do homem, da sua identidade na arte.
2_ What remnants of art from the XIX and XX centuries do you think are evident nowadays? What influences did they leave?
R. From music we have the score of the São Benedito Festival. We have a very fragile memory, and people do not save everything. It’s easy to destroy the past, but I think that architecture is an interesting remnant of the past. For example, the graveyard art of the Santa Rosa de Lima cemetery from 1883, the Portuguese tiles, mansions, the 1911 meat market, the Santa Terezinha Institute from the 40’s, Monsenhor Mâncio Ribeiro's mansion from 1931 – a neoclassical building -- the prefecture is an example as well (from 1902), and the cathedral (from XIX). So this is art, the ability to see a man's past presence and identity through the art they leave behind.
3_ Existe algum tipo de apoio para esse seu trabalho de pesquisa, que é voltado para o patrimônio histórico de Bragança? Se ele está sendo divulgado?
R: Nós conseguimos uma parceria com a câmara de Bragança e Portugal, vai ser publicado uma cartilha. Recebemos o apoio da Fundação Hilário Ferreira para produção de mapas de evolução histórica. Eles já estão prontos. Nós começamos uma ligação com a literatura, buscando apoio, como o da secretaria municipal de planejamento quando começamos o projeto e agora com a secretaria de cultura onde conseguimos divulgar. Temos um trabalho escrito agora sobre arte no encontro estadual no Rio Grande do Sul. O projeto dos quatrocentos anos veio fruto de discussões jogadas no projeto de pesquisa. A Cela (casa de estudos lusoamazonicos) ajudou agente divulgar isso. Eu recebi um convite para participar de um programa de rádio do comunicador Gerson Perez Filho, agente apresenta isso pra população, pega o projeto, os dados e fala de patrimônio histórico. Recebemos uma série de feedbacks, e-mails, cartinhas, muitos telefonemas, e aí agente percebe como a história vai fazendo sentido na vida dessas pessoas, as redes sociais estão ajudando a divulgar de forma maciça aquilo que tá no blog. O Blog, com coisas e fatos de Bragança recebeu mais de cento e trinta e cinco mil visitas. Então, eu parto desse princípio para divulgar essas coisas, lógico, tentando fazer isso de forma bem democrática e interessante.
3_ Is there some kind of support for your research which is focused on the historical heritage of Bragança? Has it been recognized?
We have created a partnership with the city council of Bragança and Portugal, and there will be a book published about the history of Bragança. We’ve received support from the Hilário Ferreira Foundation for the production of historical evolution maps. They're actually already done. We’ve begun to work with literature, looking for some support from the Municipal Secretary of Planning and the Secretary of Culture. We are currently writing about the state conference of art in Rio Grande do Sul. The project of 400 years of Bragança came about from discussions of research projects and A Casa de Estudos Lusoamazônico (CELA) which has helped make this possible. I was also invited to participate in Gerson Perez Filho’s radio program which was an opportunity to present this project to the population. We received a lot of feedback and we realize how history makes sense for people's lives; also, social networks are helping to spread the word. Our blog has received more than 135,000 hits. So, I begin with the idea to publish this project, of course, trying to do it in a interesting and democratic way.
4_ o que esperar da sociedade, sobretudo a bragantina, com relação a sua arte, sua cultura para os próximos anos?
R: O projeto dos quatrocentos anos é algo pra mim que tem que ser discutido com a sociedade. Eu elenquei cento e onze propostas, onde apresentei todas ao poder público, a câmara. Foram propostas bem interessante. Tirar a história de Bragança do submundo. Fazer o arquivo público, construir um arquivo público sério, organizado. Eu não vou me reportar ao povo de Bragança no sentido do que eu espero desse povo, porque ele é um conjunto muito diversificado e plural, cada um vê Bragança ainda muito “umbilical”, muito sua. Eu penso algo maior, que isso tudo tem que vir na educação, a valorização de Bragança tem que tá no currículo, tem que tá no desenho, na grade curricular. E tem que partir dos nossos educadores. Agente aprende isso na universidade, no ensino médio, mas não colocamos em prática. Tá faltando atitude. É a diferença.
4_ What do you hope from society, especially Bragança, in relation to the arts and culture in the next years?
The Project of 400 years of Bragança is to me something that must be discussed with people from Bragança. I sent 111 proposals to the city council and I presented all of them to the public. They were very interesting. Removing the history of Bragança from the unknown and creating an organized and serious publishable file. I prefer not to tell the community of Bragança what I hope for them in the sense that this is a very diverse community, everyone views their own Bragança differently. I think on a larger scale, everything has to revolve around education, the value that Bragança places on curriculum. It's also up to our teachers. We learn things in college, in high school, but we don't put it into practice. We're missing the drive. That's the difference.
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